Lígia de Noronha * psicóloga, especialista no despertar da consciência

Ninguém é culpado!

Ninguém é culpado!

É urgente desmistificar esta questão – a qual está presente em cada pessoa, cada família, instituição ou outro contexto qualquer que envolva seres humanos… A questão da culpa!
É urgente falar disto para salvar crianças (da culpabilidade infantil), para salvar jovens (do suicídio) e para salvar adultos de ataques de coração! Literalmente!
Reparem…
Não há ninguém que não sinta algum tipo de culpa (mesmo que a negue e disfarce, transferindo-a para os outros, mesmo que a mergulhe em álcool, mesmo que a mascare com a mágoa ou o ressentimento).
Não há quem não sinta culpa porque ninguém realmente sabe o que é o Amor, nem o manifesta, de facto…
E disto ninguém é culpado! Trata-se simplesmente de um grande equívoco, que vem sendo arrastado há séculos, ao ponto de estarmos absolutamente ao contrário de quem verdadeiramente somos, na Essência – veículos de Amor.
Reflictam…
Qualquer pessoa, mesmo que esteja cheia de razão (ou ache que está), se fala mal com/de alguém, se bate num filho, se se comporta de uma maneira desagradável de algum modo…, enfim, se não é amorosa (ao olhar com julgamento, desprezo ou crítica, ao falar com rispidez, ironia ou mesmo violência – descarregamento de raiva -, ao agarrar com brutalidade, ou ao bater), qualquer pessoa, mesmo que pense e sinta que tenha motivos válidos para fazer o que é descrito acima a título de exemplo, acaba sentindo culpa (“porque falei assim”, “não devia ter feito/dito aquilo daquela maneira”, “foi desnecessário”), mais tarde ou mais cedo, em maior ou menor grau… Porém não é culpada! Não é culpada porque aprendeu tudo isto, e até aprendeu a ter dificuldade em desculpar-se, aprendeu a usar a palavra ‘desculpa’ para tudo e mais alguma coisa (“desculpe, estou a interromper?”, “desculpe, posso perguntar-lhe uma coisa?”, “desculpe, que horas são?”), menos para o que a desCULPA realmente serve – corrigir a reacção, a atitude, a postura, o comportamento não amoroso que teve anteriormente!
E atenção: Pedir desculpa ao telefone não tem o mesmo efeito que pedi-la em presença… Aqui transforma-se em auto-perdão…
Pode parecer estranho, porém, acreditem, que, mesmo quem mente, engana, manipula, dissimula, ludibria, corrompe, rouba, mata (e até esfola) – não é culpado! Ninguém é culpado porque estamos todos ao contrário.
Ao contráriooooooo!!!
Há séculos e séculos que se vem confundindo amar com cuidar…
Daí que não é de admirar que as figuras parentais se preocupem mais com o ter (roupa lavada, cama, comida, escola – ter um futuro e tudo o que este implica), do que com o ser e estar dos seus filhos e filhas (“tu és uma pessoa importante para mim tal e qual como és e estás”, “és um ser único e maravilhoso, e inteiro em ti mesmo”, “eu Amo-te incondicionalmente”…).
Daí que não é de admirar que os filhos e filhas já crescidos se concentrem mais no ter (tudo e mais alguma coisa, em particular o que dá estatuto, confere segurança, traz importância e reconhecimento)… do que no Ser (“eu reconheço-me por dentro”, “eu sou perfeito e completo em mim mesmo”, “eu sou um Servidor da Família Humana”, “sou a pessoa mais importante da minha vida e sei que nela tenho uma missão a cumprir, com dons e talentos, qualidades inatas”…).
O Amor ficou para segundo plano – olhar com carinho, escutar com o coração, dizer palavras bonitas, elogiar, acariciar, beijar, abraçar – filhos e filhas (obviamente que não só) independentemente da idade que tenham…
Daí que não é de admirar que se confunda desejo, paixão, carência, dependência emocional (e/ou financeira), apego (e por aí fora) – com Amor…
E não admira também que a maior parte das pessoas que procura aconselhamento psicológico fá-lo por razões ditas amorosas (desespero total por se perder a tão idealizada e sonhada fonte de amor, aquela pessoa que nos vem dar tudo aquilo que a família toda não nos deu a vida inteira); ou então por sentir um grande vazio interior (há qualquer coisa que me falta e não sei bem o que É).
A questão é que a culpa não tem fundamento após feita a escolha (formação, carreira, emprego, negócio, relacionamento, casamento, filhos, casa, carro – frustração, desmotivação, falta de inspiração, ‘prisão’, medo de perder, de… de…).
Não importa sentir-se culpa por não se ter averiguado a motivação de base (profunda) por detrás de cada escolha. Isto não tem fundamento porque, simplesmente porque, não se conseguiu melhor, não se sabia mais e melhor, na altura, no momento, de cada escolha, atitude, reacção, etc.
Se soubesse/pudesse ter feito melhor, tê-lo-ia feito. Não sabia…
Estou formatado assim. Sou ignorante, porque nunca ninguém me disse que tenho 100% de valor tal e qual como estou e sou.. Ao contrário, sempre me disseram que viria a ser… alguém, iria ter, ter e ter isto e aquilo, se…
É por isso que a culpabilidade infantil sim, tem fundamento. “O meu pai não gosta de mim”, “parece que não tenho importância alguma”, “ninguém me liga”, “a minha mãe está a chorar porque eu…”, “os meus pais estão a discutir porque eu…”, “eles separaram-se por minha causa”, “eu não presto”…
Mais tarde, estas vozes, eventualmente unidas à raiva (também infantil – com fundamento) podem ser mascaradas (inconscientemente até um dia), assim:
“Eu hei-de ser alguém”, “um dia o meu pai há-de orgulhar-se de mim”, “hão-de dar-me importância”, “quero ter muito dinheiro”, “hei-de dar presentes bons à minha mãe”, “hei-de pagar tudo para os meus irmãos”… “e, se calhar assim, me hão-de Amar verdadeiramente”, “porque eu não me Amo” (subconsciente), “não me reconheço, não me valorizo, não me admiro… por dentro!”
É por estas e por outras (noutro artigo) que de nada serve culpabilizarmo-nos ou negarmos essa culpa e transferirmo-la para alguém, para algum bode expiatório, tenha ele que ‘tamanho’ tenha. Quem se acha culpado, ou vítima de alguém, acaba sendo vítima de si mesmo. Não culpado. Vítima.
Daí que a Mudança interna, gradual, definitiva e irreversível é a única via. Mudar completamente. Nem ninguém tem que mudar para que eu me sinta melhor. Nem nada. Cabe-me a mim e apenas a mim mudar, mudar por mim, para que me Ame por dentro e assim possa Amar os outros a partir daí, do meu interior, e não do exterior…
Eu estou neste ‘estado miserável’ porque contribuo directa ou indirectamente para isso… Ninguém é culpado…

2 Comments

  1. Ana Noronha Reply

    isto faz todo o sentido!
    amar se em primeiro lugar,mudar te para ti mesmo,
    se nao o fizeres mais nimguem o fara por ti, tu es a pessoa mais importante na tua vida!

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